sábado, 25 de julho de 2015

putos

éramos uns putos cansados de amar
e víamos os mais velhos rirem-se de nós,
quando tudo o que queríamos era voar
e gritar c'o coração até perdermos a voz.

quando éramos putos, subíamos a montanha
que separava as casas — a minha e a tua,
encontrávamo-nos lá em cima e sentias-te estranha
quando eu te dizia que queria ver-te nua.

ainda éramos putos e dizias ter alguém,
enquanto me beijavas lá em cima ofegante,
chamava-se rui e cantava também
e tudo o que eu queria era ser teu amante.

dizias sermos putos e que isto era andar,
fingir ser namorados e treinar p'ra outro alguém,
com ele tu ias passear à beira-mar,
davas beijos com batom e comigo era sem.

chamavam-nos de putos, quando passavam à beira
e riam-se por querermos brincar ao amor,
mas nós já amávamos à nossa maneira
e até tínhamos lágrimas p'ra fingir sentir a dor,

éramos uns putos cansados de amar,
com corações vazios e cansados de bater,
ainda que achassem que era só a brincar
e que, por isso, não podia alguma vez doer.

deixámos os putos e também de falar,
mas eu ainda subo a minha parte da encosta
na esperança de, um dia, voltar a encontrar
essa bela menina de quem o puto ainda gosta.