quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

o porquê da relatividade

a teoria da relatividade de Einstein assenta em alguns postulados. um desses postulados simplesmente diz que existe uma velocidade limite para tudo no universo e essa velocidade é a velocidade da luz no vácuo. um consequência directa deste postulado surge quando algo, além da luz, tenta atingir essa velocidade. o que acontece é que o tecido do espaço vira contorcionista e contrai-se, enquanto que a linha do tempo também entra no jogo dos artistas de circo e dilata-se. porquê? bom, o espaço e o tempo comportam-se assim para impedir que a lei seja violada. é pura e simplesmente um truque sujo do nosso universo, que gosta de brincar aos polícias.
no entanto, é fácil encontrar uma desvantagens para a instantaneidade. imagine-se que a própria luz poderia viajar a uma velocidade superior, quiçá infinita. então, a luz de todas as estrelas do universo sufocar-nos-ia - na verdade, estorricava-nos!
eu vou partilhar um segredo, que mais ninguém sabe. existe, no nosso planeta, uma rapariga tão bonita, que todas as estrelas do universo atiram luz, constantemente e em todas as direcções, na esperança que cheguem até ela. o universo, por sua vez, para proteger este seu bem tão precioso, estipulou uma velocidade limite para os presentes das estrelas. todas podem contribuir com as suas ofertas, mas por ordem das que estão mais perto de nós para as que se encontram mais longe. desta maneira, ninguém lhe fará mal.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

deu-me um sorriso

hoje, nada mais importa,
como a vida me engana
ou o mundo se comporta
nesta vil paisagem urbana.

ia convencido, eu, das intrigas
que me asfixiam pela alvorada -
fazem-se passar por amigas
e esquartejam-me na almofada.

quando ela passou por mim,
passou por mim e sorriu
como quem cede, diz que sim
e, num instante, se sumiu.

devolvi-lho de volta,
não o dela, mas o meu,
afinal nada me falta
e a tristeza desvaneceu.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

a inércia do amor

por ser, quiçá, tão banal, ninguém pensa devidamente no assunto. tomam-no como um pilar do universo, que existe, tem a sua função e desde que a cumpra, ninguém se lembra sequer que está lá. a verdade é que o amor possui inércia e é directamente proporcional à vontade de amar. quanto maior for a nossa ansiedade, maior é a inércia que lhe diz respeito e maís difícil se torna de ultrapassar. é simples de entender, com um exemplo. quando existe alguém que não larga o nosso respirar, a nossa imaginação e constantemente invade os nossos sonhos, temos de nos obrigar a abrandar. se avançamos com toda a vontade do coração, atropelamos tudo e resta apenas um amontoado indiscernível de coisas pontiagudas no chão.
quando se gosta de alguém, tem de se dar a conhecer a essa pessoa. há que fazê-lo na dose certa e essa margem é extremamente pequena. se a quantidade usada for pouca, nunca pensará que é amor e, se a quantidade for excessiva, temerá tratar-se de obsessão. a verdade é que o motor de um amor queima sempre o mesmo combustível, o que difere é o quão bom somos a controlar o ruído que faz. deve ser suficiente para chamar atenção e plantar uma semente de intriga, não mais e não menos. isto é a inércia do amor, porque quanto maior for, mais difícil é de conter o ruído deste motor interno a que chamam coração.
é mundano fazer a corte a alguém, simultaneamente uma arte e uma ciência. há quem o faça bem, naturalmente como respirar e há quem nem saiba por onde começar. aquela margem que dita a dose certa de galanteios continuados é tão nítida para os primeiros, como uma fita negra sobre um fundo branco e tão baça para os segundos, como as ruas de uma cidade que nunca viram.
o mais cruel de tudo é ter de acorrentar o próprio coração e atirá-lo para a solitária, privar-lhe o sol e qualquer contacto humano. cinco minutos de liberdade por dia são o suficiente para manter a dosagem correcta. no fim, o que resta é esperar... esperar que o soltem para cometer os actos mais tresloucados de amor ou se esqueçam dele e o deixem para morrer.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

solidão

a solidão é o pijama da minha alma,
as vestes do maior conforto que possuo,
só a sua escuridão me acalma
quando, no medo de avançar, recuo.

o prólogo foi mais do que vago,
falou de mudo para surdo ouvir,
como um livro de gosto amargo
com palavras difíceis de engolir.

em verdade, é o epílogo que receio,
o funeral do valente herói
cuja valentia era só o paleio
de um coração que já não dói.

a culpa de toda esta amargura
atribuo ao indomável aleatório,
que arrancou de mim a alma pura
à troca de um triste velório.

escolho ouvir a escala menor,
rejeito o resto como ruído,
morrer será bem melhor
do que viver assim — contido.

a morte é um beijo de boa noite,
um aconchegar de cobertores,
o prazer elevado ao limite
da soma de todos os amores.

sábado, 8 de dezembro de 2012

o poeta

o poeta canta os seus azares
com a manha que lhe apetece
e, se vierem aos pares,
acima de catástrofes os enaltece.

o poeta é um homem amargo,
que sofre pelo prazer de sofrer,
a felicidade é só um embargo
à sua vontade de escrever.

o poeta é uma página branca
que anseia por inspiração
e, do lado de fora, tranca
o que lhe vai no coração.

o poeta não sabe sentir,
finge o que os outros sentem
e escreve bem, a mentir,
os sentimentos de outrem.

o poeta morre ignorante
numa poça da sua apatia,
sem saber que o importante
é ignorar a agonia.

o poeta tem uma valsa,
um ritual para escrever,
quando a tristeza é falsa
mais vale deixar morrer.

sábado, 1 de dezembro de 2012

beber para esquecer

lembrei-me da apagar os feitiços da cabeça,
depois de beber à saúde da condessa.
bebo em solidão, este trago amargo
arranha-me as entranhas e não o largo.

um pouco mais forte, duplo se puder,
espero levantar-me e cair para morrer.
não há uma alma que escape à miséria
e a minha só é mais outra galdéria.

o meu braço, de beber, já cansa,
para cima e para baixo nesta dança
que ecoará por toda uma vida.
oh, sorte! não haverá outra saída?

visão turva, os contornos distantes...
porque não fomos mais cedo amantes?
o mundo é belo envolto em nevoeiro,
um navio naufragado apresenta-se inteiro.

tive esta alegria ao ver-te cheio,
um trago, dois e já vais tu a meio.
senta-te comigo, bebe-te e escreve
a voz deste homem que tanto deve.

por dever ao mundo, afogo a memória
que, um dia, provei da fama e glória.
as lágrimas valem-se num copo fundo,
esvazio-as dentro deste corpo imundo.

um último, por favor, para a viagem!
quem sabe se até lá chega a bagagem...
com o bilhete na mão e o destino traçado,
só falta mesmo cair para o lado.

a garrafa ajudou por mais um dia,
amanhã espera-me a mesma agonia.
eu bebo e bebo para esquecer
que esta vida tem o dom de doer.

domingo, 25 de novembro de 2012

o rapaz desmembrado


era uma vez, outra vez,
um rapaz apaixonado
e sem sensatez
que acabou destroçado.

a história está cheia
de condenados amores,
um só se incendeia
e acaba sem cores.

(o conto que conto
seria até engraçado,
não fosse o rapaz tonto
ter-se magoado.)

maria, elvira ou inês,
rapariga sem igual,
tinha sotaque francês
e, na cara, um sinal.

só se dava com rapazes
e portava-se como um,
coleccionava cicatrizes
e gostava de atum.

de tudo, o mais curioso:
ela detestava abraços
e esse acto asqueroso
afastava-a mil passos!

o pobre rapaz, um dia,
rejeitou a noção de dor
e disse que tudo faria
para tomar aquele amor.

cortou o braço esquerdo,
depois cortou o direito,
o que fez, fez em segredo
e o corte foi perfeito!

(como, eu não sei)
ele fê-lo sem pedir ajuda,
à margem daquela lei
que o coração fez muda.

o desmembrado rapaz
não agradou à inês
(recordei-me lá atrás)
e em lágrimas se desfez.

(temos de nos lembrar,
ainda que seja duro,
o que fazemos por amar
é um tiro no escuro.)

de coração partido,
só pensava em morrer,
o rapaz destemido
já nem podia comer!

nem mãos, nem braços,
as noites eram lentas,
os sonhos escassos
e as ideias nojentas.

sem alívio para a agonia,
deitou-se sobre os carris
e lá para o final do dia,
finalmente, foi feliz.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

sem título

em silêncio dou por mim
e sei que a tua voz se foi,
mas não me lembrar do fim
é aquilo que mais me dói.

angústia é melhor que nada,
é renegar o vácuo opressor,
é sentir esta vida mal passada
que podia ter sido melhor.

o mundo já não está ocultado
e já não é o teu lugar especial,
abrigo escondido e recanto privado,
onde, um dia, eu entrei por mal.

começou no nada e deve
voltar ao nada de onde surgiu,
esqueceu-se do que te descreve
e apagou-te das coisas que viu.

quando, por fim, me faltar a graça,
que perca também o encanto,
que me neguem em toda a farsa
e me atirem para o pior canto.

por ter morrido depressa demais
ou não ter morrido devagar o suficiente,
perdi-me em lembranças banais
que me enlouqueceram completamente.

foge, foge comboio valente,
ruma para bem longe daqui,
leva contigo esse velho presente
de quem nem se lembra de ti.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

nada acontece

nada acontece
ou, pelo menos,
é o que parece.

saio a disparar
um desejo
ao velho luar.

o meu suor
é um anseio
por algo melhor.

um peixe nada
em torno
d'um pé de fada.

uma estrela brilha
sozinha
numa ilha.

o coração cessa,
sem amor,
já não há pressa.

a beleza solta
é uma fera
sem escolta.

o dedilhado
é um acorde
mais cuidado.

ao fim do dia,
um só vislumbre
e eu sorria.

sou um animal,
mas jamais
te farei mal.

apesar do sono,
não dormirei
sem o teu retorno.

toquem-me lábios
carnais, encarnados
e sábios.

vozes na rua
são euforia
por vê-la nua.

estudasses ou não,
jamais entenderias
um coração.

vou dormir,
isto há muito
deixou de se ouvir.

nada acontece
ou se faz por acontecer,
apenas se falece.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

o amor não é contínuo

o amor não é contínuo, como se pode ler no título e parece-me razoável começar por aí. eu não só afirmo que não é contínuo, como também sei como se comporta. é muito simples, de facto, o amor é discreto. não, no sentido de algo que é recatado e sabe guardar um segredo, mas sim, no sentido matemático da palavra. ou seja, o amor é impulsivo! (o que quero dizer é que o amor acontece por impulsos, separados no tempo e sem qualquer amor nessa separação.)
é uma conclusão desafiadora, eu sei. no entanto, a verdade é só uma: é impossível amar continuamente, porque amar requer tudo de nós. para amar, temos de nos entregar de alma, corpo e mente, temos de nos render durante os sonhos e procurar abrigo nos pesadelos, temos de acordar e adormecer com um só pensamento: o amor. contudo, se tudo isto fosse apenas o que fizéssemos, então nada mais era feito: a comida não era preparada, os projectos não saíam do papel e esse papel continuaria sempre branco - estaríamos demasiado ocupados a amar para poder viver.
o conceito que guardamos em nós de amor, não é o de verdadeiro amor contínuo, mas o de um amor discreto - por impulsos - simples. amamos quando nos aborrecemos, quando estamos sozinhos, no caminho para a escola ou o trabalho, na fila do supermercado ou quando vemos alguém que está, nesse momento, também a amar. lá vai acontecendo, mais ou menos frequente e até, por vezes, quase todos os instantes consecutivos e é nesses momentos que parece contínuo e interminável. não o é, é uma ilusão! (mas não deixa de ser uma ilusão agradável.)