segunda-feira, 11 de março de 2019

és

um traço de magia, um encanto,
o meu raio de Sol ao fim do dia,
a melhor possível companhia,
tudo o que preciso no meu manto.

as garras da coruja no meu coração,
o negrume do peito quando te ausentas,
o indomável lume, se me esquentas,
o papel em que escrevo a confissão.

a minha declaração de amor,
a minha declamação sem coragem,
a minha grade ao chegar à margem,
as minhas asas, o meu conductor.

um dia de inverno ausente de frio,
o verão que teima em não terminar,
a escuridão que cessa com o luar,
a brisa que me deixa em arrepio.

sexta-feira, 8 de março de 2019

morreu algo em mim e não eu

eu já não sou eu, não me sinto eu,
não sei quem sou, aqui e agora,
somente quem fui lá e outrora,
que esse algo, aqui e agora, morreu.

maldita hora, atrevida felicidade...
bendito infortúnio, onde andas tu?
traz-me o fado mal passado — cru —
que eu já passei da tenra idade.

eu não sei ser feliz e não sei,
eu não quero ser feliz e não quero,
já nem sei por quem eu espero,
já nem lembro por onde errei.

salva-te a ti, salva até a tua mãe,
chama os deuses do Olimpo e além,
leva a felicidade que só cego tem
e deixa-me ser sozinho — ninguém.

quarta-feira, 6 de março de 2019

monstro

já não sei quem foi, me arrastou até aqui,
o que dói em mim e eu não senti,
porque me pesa a alma com um fardo não meu
e, quando te mataram, fui eu quem morreu.

levas a minha mão ao fogo no teu peito —
a mão que tens é a minha por defeito —
que mal se nota por entre a tua calma
e o que arde, na verdade, é a minha alma.

já não sei quem foi, me roubou a alegria,
se foi ela que partiu para melhor companhia —
alegria que sempre foi um engodo,
para mim, para ti e o mundo todo.

leva-a contigo para perto do teu sorriso,
esse nectar, esse milagre, esse tudo o que eu preciso,
essa veste floral em pleno inverno,
esse pecado carnal — meu inferno.

sábado, 3 de novembro de 2018

sara

tortura é ter-te comigo tão perto
e não poderes estar mais distante,
os teus olhos reflectem um amante,
os teus lábios — oásis no deserto!

p'ra infortúnio das mulheres — essas
que passam à minha frente na rua —
oh! meu coração, não pares... recua,
se por ela as paredes atravessas!

já não me lembro de sentir as veias
trepidar sob as camadas de pele —
esta pele que tu e só tu incendeias.

e o meu corpo, que tanto te é fiel,
sucumbe ao amor que tão bem doseias
em dose que sempre será cruel.

terça-feira, 22 de maio de 2018

cala-te

vai embora e vê se desapareces
de uma forma que seja permanente,
p'ra que jamais em mim, na minha mente,
invadas o cerne das minhas preces.

desliga a voz que à noite me sussurra
esses desejos que nunca exprimiste,
esse amor vazio que em nada consiste
e p'ra autoflagelação me empurra.

tivemos nada mais que um silêncio
breve, na pausa d'uma tempestade
que eu achava ser, em nós, um prenúncio.

talvez o problema fosse a idade,
mas ao mundo inteiro eu te denuncio
como um mar infindável de vaidade.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

proíbido

não posso autorizar o nosso amor,
se, de facto, tu me queres amar,
quando eu estou louco por te amar,
cozem-se-me as entranhas a vapor.

não olhes! corre! foge desgraçado,
antes que a vontade c'oa tua se una
e deixes de saber o que é fortuna,
porque estás novamente enfeitiçado.

quando não sou livre de amar quem quero,
não sou livre sequer p'ra respirar
esse aroma de ti que me é austero.

para o coração não me esquartejar,
um amor mais enfadado eu espero,
porque a força do teu vai-me matar.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

cocaína

tenho cocaína nas veias,
é a dose que chega ao fim,
é a fornalha que incendeias
quando passas por mim.

tenho a ruína do castelo,
que montámos em criança,
que apelidámos de belo
antes de perder a esperança.

tenho notícias do fundo
do saco que bate no peito
do homem a gritar ao mundo
que nada corre do seu jeito.

tenho sono imenso p'ra dormir
na cama que é grande demais,
na rua onde se fazem ouvir
os doces uivos dos chacais.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

antes de haver luar

antes de haver luar,
qualquer tipo de luz,
no fundo desse olhar
que a nada me reduz.

antes de haver beleza,
todo e qualquer apelo,
eras tu sobre a mesa
e em mim o teu cabelo.

antes de haver morte
ou resquícios de vida,
era já homem de sorte
d'amor sem medida.

antes de haver amor
ou qualquer outra dor,
faltava também a cor,
o sorriso ou o que for!

sábado, 6 de janeiro de 2018

noite só

caminho estas ruas desertas,
as noites de estrelas cobertas,
entre o ténue assobio do vento
sou o maior poeta sem talento.

procuro perto uma porta aberta,
ando à deriva e à descoberta,
perdido entre ruas conhecidas
p'ra as quais não conheço saídas.

se numa cave encontrar um bar,
copos vou beber, cigarros vou fumar,
a alma inteira coloco sobre a mesa
p'ra que todos vejam esta fraqueza.

o meu corpo teima em existir,
o coração bate sem lhe pedir,
a circulação acelera em vão
p'ra me manter refém da solidão.

sábado, 21 de outubro de 2017

haiku

I
cheira a queimado
num abraço apertado,
a casa perdeu-se.

II
é velha a casa
em que este verso surge
e o haiku nasce.

III
a meio da tarde
o sol por entre os ramos
bate-nos na cara.