sábado, 3 de novembro de 2018

sara

tortura é ter-te comigo tão perto
e não poderes estar mais distante,
os teus olhos reflectem um amante,
os teus lábios — oásis no deserto!

p'ra infortúnio das mulheres — essas
que passam à minha frente na rua —
oh! meu coração, não pares... recua,
se por ela as paredes atravessas!

já não me lembro de sentir as veias
trepidar sob as camadas de pele —
esta pele que tu e só tu incendeias.

e o meu corpo, que tanto te é fiel,
sucumbe ao amor que tão bem doseias
em dose que sempre será cruel.

terça-feira, 22 de maio de 2018

cala-te

vai embora e vê se desapareces
de uma forma que seja permanente,
p'ra que jamais em mim, na minha mente,
invadas o cerne das minhas preces.

desliga a voz que à noite me sussurra
esses desejos que nunca exprimiste,
esse amor vazio que em nada consiste
e p'ra autoflagelação me empurra.

tivemos nada mais que um silêncio
breve, na pausa d'uma tempestade
que eu achava ser, em nós, um prenúncio.

talvez o problema fosse a idade,
mas ao mundo inteiro eu te denuncio
como um mar infindável de vaidade.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

proíbido

não posso autorizar o nosso amor,
se, de facto, tu me queres amar,
quando eu estou louco por te amar,
cozem-se-me as entranhas a vapor.

não olhes! corre! foge desgraçado,
antes que a vontade c'oa tua se una
e deixes de saber o que é fortuna,
porque estás novamente enfeitiçado.

quando não sou livre de amar quem quero,
não sou livre sequer p'ra respirar
esse aroma de ti que me é austero.

para o coração não me esquartejar,
um amor mais enfadado eu espero,
porque a força do teu vai-me matar.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

cocaína

tenho cocaína nas veias,
é a dose que chega ao fim,
é a fornalha que incendeias
quando passas por mim.

tenho a ruína do castelo,
que montámos em criança,
que apelidámos de belo
antes de perder a esperança.

tenho notícias do fundo
do saco que bate no peito
do homem a gritar ao mundo
que nada corre do seu jeito.

tenho sono imenso p'ra dormir
na cama que é grande demais,
na rua onde se fazem ouvir
os doces uivos dos chacais.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

antes de haver luar


antes de haver luar,
qualquer tipo de luz,
no fundo desse olhar
que a nada me reduz.

antes de haver beleza,
todo e qualquer apelo,
eras tu sobre a mesa
e em mim o teu cabelo.

antes de haver morte
ou resquícios de vida,
era já homem de sorte
d'amor sem medida.

antes de haver amor
ou qualquer outra dor,
faltava também a cor,
o sorriso ou o que for!

sábado, 6 de janeiro de 2018

noite só

caminho estas ruas desertas,
as noites de estrelas cobertas,
entre o ténue assobio do vento
sou o maior poeta sem talento.

procuro perto uma porta aberta,
ando à deriva e à descoberta,
perdido entre ruas conhecidas
p'ra as quais não conheço saídas.

se numa cave encontrar um bar,
copos vou beber, cigarros vou fumar,
a alma inteira coloco sobre a mesa
p'ra que todos vejam esta fraqueza.

o meu corpo teima em existir,
o coração bate sem lhe pedir,
a circulação acelera em vão
p'ra me manter refém da solidão.

sábado, 21 de outubro de 2017

haiku

I
cheira a queimado
num abraço apertado,
a casa perdeu-se.

II
é velha a casa
em que este verso surge
e o haiku nasce.

III
a meio da tarde
o sol por entre os ramos
bate-nos na cara.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

se um dia uma rainha

se um dia uma rainha
se sentasse ao teu lado,
se ela fosse pequenina
e do teu agrado

o que é que tu,
o que é que tu
lhe dirias?

se um dia a navegar
p'los olhos de sua graça
te sentisses naufragar
sem qualquer ameaça

o que é que tu,
o que é que tu
farias?

se um dia na escuridão
ouvisses a voz menina
chamar do coração
que pertence à rainha

o que é que tu,
o que é que tu
responderias?

se um dia uma rainha
fizesse de ti seu rei
e fosse também mansinha
à tua palavra-lei

o que é que tu,
o que é que tu
sonharias?

quinta-feira, 20 de abril de 2017

eu gosto de ti, daquela maneira

eu gosto de ti, daquela maneira
secreta — nem à minha alma o contei,
nem ao coração, um dia, perdoarei
a omissão de tamanha chinfrineira!

por ti espero, em perpétua agonia
de uma dor que nasceu sem avisar,
da distância que impede de sonhar
que a cama não tem de se ter vazia.

abram alas aos meus dedos falantes,
que, em mim, são detentores da coragem
com a qual eu apenas sonhava antes.

p'ra que, um dia, possas ser mais do que imagem,
morrem aqui e agora as amantes
que eu apenas amei por vadiagem.

sábado, 25 de julho de 2015

putos

éramos uns putos cansados de amar
e víamos os mais velhos rirem-se de nós,
quando tudo o que queríamos era voar
e gritar c'o coração até perdermos a voz.

quando éramos putos, subíamos a montanha
que separava as casas — a minha e a tua,
encontrávamo-nos lá em cima e sentias-te estranha
quando eu te dizia que queria ver-te nua.

ainda éramos putos e dizias ter alguém,
enquanto me beijavas lá em cima ofegante,
chamava-se rui e cantava também
e tudo o que eu queria era ser teu amante.

dizias sermos putos e que isto era andar,
fingir ser namorados e treinar p'ra outro alguém,
com ele tu ias passear à beira-mar,
davas beijos com batom e comigo era sem.

chamavam-nos de putos, quando passavam à beira
e riam-se por querermos brincar ao amor,
mas nós já amávamos à nossa maneira
e até tínhamos lágrimas p'ra fingir sentir a dor,

éramos uns putos cansados de amar,
com corações vazios e cansados de bater,
ainda que achassem que era só a brincar
e que, por isso, não podia doer.

deixámos os putos e também de falar,
mas eu ainda subo a minha parte da encosta
na esperança de, um dia, voltar a encontrar
essa bela menina de quem o puto ainda gosta.