terça-feira, 22 de maio de 2018

cala-te

vai embora e vê se desapareces
de uma forma que seja permanente,
p'ra que jamais em mim, na minha mente,
invadas o cerne das minhas preces.

desliga a voz que à noite me sussurra
esses desejos que nunca exprimiste,
esse amor vazio que em nada consiste
e p'ra autoflagelação me empurra.

tivemos nada mais que um silêncio
breve, na pausa d'uma tempestade
que eu achava ser, em nós, um prenúncio.

talvez o problema fosse a idade,
mas ao mundo inteiro eu te denuncio
como um mar infindável de vaidade.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

proíbido

não posso autorizar o nosso amor,
se, de facto, tu me queres amar,
quando eu estou louco por te amar,
cozem-se-me as entranhas a vapor.

não olhes! corre! foge desgraçado,
antes que a vontade c'oa tua se una
e deixes de saber o que é fortuna,
porque estás novamente enfeitiçado.

quando não sou livre de amar quem quero,
não sou livre sequer p'ra respirar
esse aroma de ti que me é austero.

para o coração não me esquartejar,
um amor mais enfadado eu espero,
porque a força do teu vai-me matar.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

cocaína

tenho cocaína nas veias,
é a dose que chega ao fim,
é a fornalha que incendeias
quando passas por mim.

tenho a ruína do castelo,
que montámos em criança,
que apelidámos de belo
antes de perder a esperança.

tenho notícias do fundo
do saco que bate no peito
do homem a gritar ao mundo
que nada corre do seu jeito.

tenho sono imenso p'ra dormir
na cama que é grande demais,
na rua onde se fazem ouvir
os doces uivos dos chacais.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

antes de haver luar


antes de haver luar,
qualquer tipo de luz,
no fundo desse olhar
que a nada me reduz.

antes de haver beleza,
todo e qualquer apelo,
eras tu sobre a mesa
e em mim o teu cabelo.

antes de haver morte
ou resquícios de vida,
era já homem de sorte
d'amor sem medida.

antes de haver amor
ou qualquer outra dor,
faltava também a cor,
o sorriso ou o que for!

sábado, 6 de janeiro de 2018

noite só

caminho estas ruas desertas,
as noites de estrelas cobertas,
entre o ténue assobio do vento
sou o maior poeta sem talento.

procuro perto uma porta aberta,
ando à deriva e à descoberta,
perdido entre ruas conhecidas
p'ra as quais não conheço saídas.

se numa cave encontrar um bar,
copos vou beber, cigarros vou fumar,
a alma inteira coloco sobre a mesa
p'ra que todos vejam esta fraqueza.

o meu corpo teima em existir,
o coração bate sem lhe pedir,
a circulação acelera em vão
p'ra me manter refém da solidão.

sábado, 21 de outubro de 2017

haiku

I
cheira a queimado
num abraço apertado,
a casa perdeu-se.

II
é velha a casa
em que este verso surge
e o haiku nasce.

III
a meio da tarde
o sol por entre os ramos
bate-nos na cara.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

se um dia uma rainha

se um dia uma rainha
se sentasse ao teu lado,
se ela fosse pequenina
e do teu agrado

o que é que tu,
o que é que tu
lhe dirias?

se um dia a navegar
p'los olhos de sua graça
te sentisses naufragar
sem qualquer ameaça

o que é que tu,
o que é que tu
farias?

se um dia na escuridão
ouvisses a voz menina
chamar do coração
que pertence à rainha

o que é que tu,
o que é que tu
responderias?

se um dia uma rainha
fizesse de ti seu rei
e fosse também mansinha
à tua palavra-lei

o que é que tu,
o que é que tu
sonharias?

quinta-feira, 20 de abril de 2017

eu gosto de ti, daquela maneira

eu gosto de ti, daquela maneira
secreta — nem à minha alma o contei,
nem ao coração, um dia, perdoarei
a omissão de tamanha chinfrineira!

por ti espero, em perpétua agonia
de uma dor que nasceu sem avisar,
da distância que impede de sonhar
que a cama não tem de se ter vazia.

abram alas aos meus dedos falantes,
que, em mim, são detentores da coragem
com a qual eu apenas sonhava antes.

p'ra que, um dia, possas ser mais do que imagem,
morrem aqui e agora as amantes
que eu apenas amei por vadiagem.

sábado, 25 de julho de 2015

putos

éramos uns putos cansados de amar
e víamos os mais velhos rirem-se de nós,
quando tudo o que queríamos era voar
e gritar c'o coração até perdermos a voz.

quando éramos putos, subíamos a montanha
que separava as casas — a minha e a tua,
encontrávamo-nos lá em cima e sentias-te estranha
quando eu te dizia que queria ver-te nua.

ainda éramos putos e dizias ter alguém,
enquanto me beijavas lá em cima ofegante,
chamava-se rui e cantava também
e tudo o que eu queria era ser teu amante.

dizias sermos putos e que isto era andar,
fingir ser namorados e treinar p'ra outro alguém,
com ele tu ias passear à beira-mar,
davas beijos com batom e comigo era sem.

chamavam-nos de putos, quando passavam à beira
e riam-se por querermos brincar ao amor,
mas nós já amávamos à nossa maneira
e até tínhamos lágrimas p'ra fingir sentir a dor,

éramos uns putos cansados de amar,
com corações vazios e cansados de bater,
ainda que achassem que era só a brincar
e que, por isso, não podia doer.

deixámos os putos e também de falar,
mas eu ainda subo a minha parte da encosta
na esperança de, um dia, voltar a encontrar
essa bela menina de quem o puto ainda gosta.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Celeste (V)

tu foste linda e jovem em demasia,
foste tudo o que eu podia querer,
razão do meu respirar, de viver,
levantar, sair e enfrentar o dia...

quem assim te fez era rei ou mago,
era deus próprio, se deus existisse,
só não te quis, quem antes não te visse
nos braços da paixão onde eu te trago.

salva-me às garras de insanidade
que me levaram à louca vontade
de rasgar c'os abraços que me deste.

enterrei o teu corpo no jardim
e, de súbito, regressou a mim
o som, esse dom, meu amor — Celeste!