julguei querer partilhar dessa fama,
cujo nome em toda a parte ressoa
como o de Camões, Bocage e Pessoa,
que nunca souberam domar a chama.
julguei querer vir ser poeta, mas não —
a esses cabe sofrer por gosto e fado —
eu quero ser normal, não condenado
às chagas eternas do coração.
quero um pouco dessa felicidade
c'oa qual se embebedam gentes vulgares,
de quem invejo a falta de vaidade.
se as desgraças me ferem sempre aos pares,
de nada me serve a eternidade,
quando, em vida, morro nos teus olhares.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
homem de sorte
onde o teu silêncio me ensurda a paz
que julguei poder vir a ter, um dia,
nunca te fiz cobarde, mas capaz
d'alguma piedade por simpatia:
leva-me ao chão, não temas pisar,
ouve a razão, se alguma ainda tens,
em choros sóbrios me faço gritar
"solta esses lábios que guardas reféns!"
estou rendido à ilusão de ti,
jamais uma outra bateu tão forte
e jamais por outra tanto gemi.
julguei poder ser um homem de sorte
na louca paixão, mas já percebi —
serei só feliz às portas da morte...
que julguei poder vir a ter, um dia,
nunca te fiz cobarde, mas capaz
d'alguma piedade por simpatia:
leva-me ao chão, não temas pisar,
ouve a razão, se alguma ainda tens,
em choros sóbrios me faço gritar
"solta esses lábios que guardas reféns!"
estou rendido à ilusão de ti,
jamais uma outra bateu tão forte
e jamais por outra tanto gemi.
julguei poder ser um homem de sorte
na louca paixão, mas já percebi —
serei só feliz às portas da morte...
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
vil doença que nasceu cega
sem saber — ou o fiz por esquecer —
deixei-me guiar até àquele lugar
c'oa certeza de lá não te encontrar
e a fraca esperança de te rever.
onde, um dia, fomos mais do que tu e eu,
fomos essa conjugação de nós,
na vontade de abandonar o sós,
que nunca chegou ao seu apogeu.
sem dó, pena ou piedade à memória
que este lugar, sobre os ombros, carrega,
voltas como celebrando vitória!
e, rejeitada toda a minha entrega,
ainda aguardo a tua doce vinda em glória
curar vil doença que já nasceu cega...
deixei-me guiar até àquele lugar
c'oa certeza de lá não te encontrar
e a fraca esperança de te rever.
onde, um dia, fomos mais do que tu e eu,
fomos essa conjugação de nós,
na vontade de abandonar o sós,
que nunca chegou ao seu apogeu.
sem dó, pena ou piedade à memória
que este lugar, sobre os ombros, carrega,
voltas como celebrando vitória!
e, rejeitada toda a minha entrega,
ainda aguardo a tua doce vinda em glória
curar vil doença que já nasceu cega...
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
cegos
todos nascemos cegos e morremos cegos, porque, quando aprendemos a ver, escolhemos não o fazer.
esquisso de
pensamento aleatório
sábado, 14 de fevereiro de 2015
perder-se em vãs esperanças
não foram aqueles que me deixaram
a aguardar julgamento a descoberto,
p'ra que eu pudesse estar mais ao perto
dessa pele que outros já beijaram...
nem o vinho que me corre p'las veias
tem capacidade p'ra daqui escoar
o tumor negro que me está a matar
e a consumir as mais belas ideias.
nem há palavra p'ra a desilusão:
descobrir que ainda somos só crianças —
tão mal se sabem elevar do chão!
entre tantos movimentos e danças,
quem de nós primeiro disse que não
queria perder-se entre vãs esperanças?
a aguardar julgamento a descoberto,
p'ra que eu pudesse estar mais ao perto
dessa pele que outros já beijaram...
nem o vinho que me corre p'las veias
tem capacidade p'ra daqui escoar
o tumor negro que me está a matar
e a consumir as mais belas ideias.
nem há palavra p'ra a desilusão:
descobrir que ainda somos só crianças —
tão mal se sabem elevar do chão!
entre tantos movimentos e danças,
quem de nós primeiro disse que não
queria perder-se entre vãs esperanças?
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
carta
carta... uma carta — a última que te escrevo,
antes de começar a apagar o teu nome.
tanto te amei pelo prazer de te ter amado,
agora já nem me queres para servo.
ri por ti e ri contigo, ri muito mais que a fome!
intentei palavras com invólucro aveludado...
no teu coração, que só sabia estar fechado,
antes de o ser... já estava, há muito, condenado!
antes de começar a apagar o teu nome.
tanto te amei pelo prazer de te ter amado,
agora já nem me queres para servo.
ri por ti e ri contigo, ri muito mais que a fome!
intentei palavras com invólucro aveludado...
no teu coração, que só sabia estar fechado,
antes de o ser... já estava, há muito, condenado!
esquisso de
poema rítmico
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
o amor é terminal
olhos meus tanto carregam oceanos,
lábios meus tanto escondem cicatrizes,
já não escuto as palavras que dizes
e já pouco me sinto entre os humanos.
eu só amo ao expoente da loucura —
só na insanidade é sensato amar —
perdi o rumo da página a virar,
não sei que fazer com esta amargura.
amar é não ser feliz... é sofrer
como quem morre à espera da morte,
como quem nada mais tem a temer.
se o bater no peito fosse mais forte,
dilacerá-lo-ia só p'ra te ver,
cravando a memória funda no corte.
lábios meus tanto escondem cicatrizes,
já não escuto as palavras que dizes
e já pouco me sinto entre os humanos.
eu só amo ao expoente da loucura —
só na insanidade é sensato amar —
perdi o rumo da página a virar,
não sei que fazer com esta amargura.
amar é não ser feliz... é sofrer
como quem morre à espera da morte,
como quem nada mais tem a temer.
se o bater no peito fosse mais forte,
dilacerá-lo-ia só p'ra te ver,
cravando a memória funda no corte.
sábado, 3 de janeiro de 2015
quando o amor te governa
são palavras de uma boca não tua,
são movimentos que não te pertencem,
acções que, vindas de ti, não se entendem,
como quem dança sozinha na rua.
fazem-se de ti boneca de engonços,
já não tens gestos teus p'ra governar,
nem te resta a vontade p'ra pensar
nos sentimentos que aí tens esconsos.
nem o amor a ele sabe governar...
quem há... quem há que virá governar-te,
se é o coração quem não se quer dar?
num suspiro divino, ganho a arte
que — de quem nada mais tem p'ra falar —
tudo diz nesse gesto que é amar-te...
são movimentos que não te pertencem,
acções que, vindas de ti, não se entendem,
como quem dança sozinha na rua.
fazem-se de ti boneca de engonços,
já não tens gestos teus p'ra governar,
nem te resta a vontade p'ra pensar
nos sentimentos que aí tens esconsos.
nem o amor a ele sabe governar...
quem há... quem há que virá governar-te,
se é o coração quem não se quer dar?
num suspiro divino, ganho a arte
que — de quem nada mais tem p'ra falar —
tudo diz nesse gesto que é amar-te...
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
inverno
o sol deita-se
às quatro da tarde,
porque é inverno.
a lua reina
e a fogueira arde,
porque é inverno.
os ossos gelam,
o coração pára,
porque é inverno.
a lágrima cai
no canto da cara,
porque é inverno.
o passo branda
e o silêncio canta,
porque é inverno.
sentado à varanda,
a paz é tanta,
porque é inverno.
o vento impede
o meu avançar,
porque é inverno.
o meu amor
não há-de cessar,
porque é inverno.
às quatro da tarde,
porque é inverno.
a lua reina
e a fogueira arde,
porque é inverno.
os ossos gelam,
o coração pára,
porque é inverno.
a lágrima cai
no canto da cara,
porque é inverno.
o passo branda
e o silêncio canta,
porque é inverno.
sentado à varanda,
a paz é tanta,
porque é inverno.
o vento impede
o meu avançar,
porque é inverno.
o meu amor
não há-de cessar,
porque é inverno.
esquisso de
poema rítmico
Subscrever:
Mensagens (Atom)