sábado, 21 de outubro de 2017

haiku

I
cheira a queimado
num abraço apertado,
a casa perdeu-se.

II
é velha a casa
em que este verso surge
e o haiku nasce.

III
a meio da tarde
o sol por entre os ramos
bate-nos na cara.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

se um dia uma rainha

se um dia uma rainha
se sentasse ao teu lado,
se ela fosse pequenina
e do teu agrado

o que é que tu,
o que é que tu
lhe dirias?

se um dia a navegar
p'los olhos de sua graça
te sentisses naufragar
sem qualquer ameaça

o que é que tu,
o que é que tu
farias?

se um dia na escuridão
ouvisses a voz menina
chamar do coração
que pertence à rainha

o que é que tu,
o que é que tu
responderias?

se um dia uma rainha
fizesse de ti seu rei
e fosse também mansinha
à tua palavra-lei

o que é que tu,
o que é que tu
sonharias?

quinta-feira, 20 de abril de 2017

eu gosto de ti, daquela maneira

eu gosto de ti, daquela maneira
secreta — nem à minha alma o contei,
nem ao coração, um dia, perdoarei
a omissão de tamanha chinfrineira!

por ti espero, em perpétua agonia
de uma dor que nasceu sem avisar,
da distância que impede de sonhar
que a cama não tem de se ter vazia.

abram alas aos meus dedos falantes,
que, em mim, são detentores da coragem
com a qual eu apenas sonhava antes.

p'ra que, um dia, possas ser mais do que imagem,
morrem aqui e agora as amantes
que eu apenas amei por vadiagem.

sábado, 25 de julho de 2015

putos

éramos uns putos cansados de amar
e víamos os mais velhos rirem-se de nós,
quando tudo o que queríamos era voar
e gritar c'o coração até perdermos a voz.

quando éramos putos, subíamos a montanha
que separava as casas — a minha e a tua,
encontrávamo-nos lá em cima e sentias-te estranha
quando eu te dizia que queria ver-te nua.

ainda éramos putos e dizias ter alguém,
enquanto me beijavas lá em cima ofegante,
chamava-se rui e cantava também
e tudo o que eu queria era ser teu amante.

dizias sermos putos e que isto era andar,
fingir ser namorados e treinar p'ra outro alguém,
com ele tu ias passear à beira-mar,
davas beijos com batom e comigo era sem.

chamavam-nos de putos, quando passavam à beira
e riam-se por querermos brincar ao amor,
mas nós já amávamos à nossa maneira
e até tínhamos lágrimas p'ra fingir sentir a dor,

éramos uns putos cansados de amar,
com corações vazios e cansados de bater,
ainda que achassem que era só a brincar
e que, por isso, não podia doer.

deixámos os putos e também de falar,
mas eu ainda subo a minha parte da encosta
na esperança de, um dia, voltar a encontrar
essa bela menina de quem o puto ainda gosta.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Celeste (V)

tu foste linda e jovem em demasia,
foste tudo o que eu podia querer,
razão do meu respirar, de viver,
levantar, sair e enfrentar o dia...

quem assim te fez era rei ou mago,
era deus próprio, se deus existisse,
só não te quis, quem antes não te visse
nos braços da paixão onde eu te trago.

salva-me às garras de insanidade
que me levaram à louca vontade
de rasgar c'os abraços que me deste.

enterrei o teu corpo no jardim
e, de súbito, regressou a mim
o som, esse dom, meu amor — Celeste!

Celeste (IV)

a sombra que lanço sobre os vidrais,
encobertos p'ra não se ver o dia,
cuja luz me traz tamanha agonia,
faz pena aos seres celestiais.

tanto tarda em chegar a madrugada
que o desespero se instaura agora,
pouco depois da fatídica hora
em que te encontrei suja e desgraçada.

esse sorriso era p'ra mim precioso,
tal como era o teu amor duvidoso
ou como no sonho em que, p'ra mim, vieste.

não sei como pude eu ser capaz
p'ra fazer o que a paixão nunca faz —
apagar esse teu nome — Celeste!

Celeste (III)

haverá quem, p'la voz da ditadura
ouse ditar-me fim ao sofrimento,
que tanto necessito e não lamento,
que se sente mais forte que a brandura?

no silêncio, os murmúrios do além,
em mim, a sombra fazem descender,
c'o lumiar que se parece estender
da vela que tanto arde por ninguém.

na quase escuridão só sobro eu
e tudo resto contigo morreu,
todo o bem, todo o mal que me fizeste...

nem o negro firmamento é tão frio,
o vácuo consegue ser mais vazio
que o lugar desse teu nome — Celeste!

Celeste (II)

nas noites de tormento e de trovão,
ainda oiço palpitar fortemente
os ecos desse coração latente
que se perdeu nas margens de plutão.

nem lá fora, o silêncio c'os seus uivos
consegue, em mim, causar maior terror
que aquele me fez, em tempos, o amor,
quando me perdi em teus cabelos ruivos.

vozes que vêm do porão são loucas,
as memórias que me restam tão poucas —
ínfimas como os beijos que me deste.

já só resto eu e o teu candelabro
neste momento sóbrio e macabro
em que lembro desse nome — Celeste!

Celeste (I)

longa era a sombra sobre o meu regaço,
em mim, lançada p'lo teu castiçal,
no tecto, a balançar como um sinal
da tua voz ou do álcool no bagaço.

de costas voltadas p'rá fraca luz,
o sal das lágrimas rasgou na cara
uma fissura que nunca mais sara
p'ra ver os demónios que nunca expus.

porque mantenho a janela fechada,
o dia ou a noite, p'ra mim, são nada
como o ar frio e gélido de oeste.

a morte é o meu estado corrente
e morrer seria sentir novamente,
no peito, ecoar o teu nome — Celeste!

domingo, 14 de junho de 2015

em segredo

p'ra que te pudesse ver p'la alvorada,
nas horas já se perdia longa a noite,
quando o meu peito sofreu o açoite
da tua boca que murmurava nada.

quanto da nossa noite mal amada
se fez estéril campo de batalha
p'ra que, lá do cimo da tua muralha,
permaneças imóvel e calada?

no teu jeito de criança abandonada,
p'ra ti, não passo de um mero brinquedo
que aquece numa noite mais gelada.

já nem sei se isto é hábito ou medo,
sou a tua companhia da madrugada,
porque tu só me queres em segredo.